quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Tema 20 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "Desdobramentos".

Ruga na testa [...] Raiva, dúvida, espanto

Bainha da calça [...] Medida de crescimento, cofre de poeira, alinhavo

Dobradiça de porta [...] Suporte borboleta, poder de soltura, barulho

Prega de saia [...] Camadas de mistério, dança de mostra-esconde, desejo

Aba de envelope [...] Porta para a saudade, enlevo

Joelhos na Missa [...] Ofertas interessadas, desculpas tardias, pecado

Degraus de escada [...] Elevação física, ascensão humana, esforço

Tempo/Espaço [...] Uni-verso sem/com sentimento, dobra-se à próprio gosto

[.]

ENTRETEXTOS VISUAIS - Edição 2010

O projeto "Entretextos Visuais" (ETV) nasceu de um diálogo entre um escritor e um ilustrador que, em maio de 2009, começaram a trocar experiências pelos percursos da escrita e da imagem. A cada semana, um tema gerador impulsiona criações variadas entre as duas linguagens. A cada semana, similaridades ou disparidades criam relações textuais e visuais para além das intenções de cada um.

A edição de 2009 contou com 13 propostas. Agora, a partir do post abaixo, damos início à edição 2010 do projeto.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ETV - 01


Proposta de Adriano Antunes:

"Senhor... Mire veja: o mais importante e bonito,
do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre
iguais, ainda não foram terminadas - mas
que elas vão sempre mudando."

(Luiz Horácio - Jornal Rascunho Agosto/09)
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De Wolney Fernandes, "[In]completudes".
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De Adriano Antunes, "Ponto de Partida".

- Eu não lembro bem a data, mas o cheiro de terra úmida do pátio da casa de minha avó, ah senhor, prendeu-se ao meu nariz.

Fez uma pausa, olhou o céu e continuou:

- Toda vez que minha família chegava de cansativa viagem desde Santa Catarina para férias na casa de minha avó Alice, meus olhos pequeninos procuravam identificar as grandes ruas, as árvores floridas e a terra arenosa, úmida, que se estendia do portão por entre as folhagens até a porta da cozinha.
Meu coração batia descompassado.

Sorriu por um instante, inclinou a cabeça para o lado e logo os olhos brilharam:

- Eu corria na frente de todos e afoito empurrava aquele portão de ferro pesado pintado de verde escuro. Contornava a casa em direção a cozinha, passando as mãos em um canteiro de margaridas que indicavam o caminho com uma sequência de dentes branquinhos a sorrir e dar boas vindas.

Levantou-se, foi até a sacada em apenas dois passos. Olhou a cidade.

- Eu adorava o conjunto de xícaras de minha avó Alice. Ela sabia telepaticamente, como toda avó, e me esperava com leite quentinho na xícara que eu mais gostava. Era um conjunto de porcelana muito delicado e pintado a mão, como tudo naquela época, onde gnomos faceiros, multicoloridos, trabalhavam alegremente. Eu os achava tão felizes que me tornava feliz em observá-los.

Parou na entrada, pensou um pouco, depois continuou:

- Havia uma grande taquareira nos fundos da casa. Era o quartel general de meus primos. Ali, escondidos por entre taquaras e folhas secas, bolávamos os mais mirabolantes planos. Inclusive o de fugir de casa quando nossos pais exigiam tema feito e banho tomado.

Olhou desta vez para o pequeno apartamento. Observou a mobília, os quadros, as cores. Desviou o olhar novamente para a sacada.

- Hoje, depois de muito tempo, permiti ao meu corpo de adulto percorrer os arredores de minha infância. Sinto que nesses anos todos impermeabilizei o olhar sobre o meu passado andando por caminhos definidos, paralelos. A casa de minha avó continua lá. Três ruas daqui. Mas eu fui crescendo e limitando minha vida ao meu estacionamento, ao prédio, ao horizonte distante que vejo da minha sacada. Mas hoje, por quase duas horas, percorri meu bairro. Reconheci a Relojoaria Lino, onde minha mãe comprou meu primeiro relógio e me transformou em senhor do tempo; o Mercado Rabaioli, de pães quentinhos pela manhã e corridas urgentes no meio da tarde, quando de súbito faltava manteiga para o lanche da gurizada; a Estofaria Estrela, com seus sofás encalhados, na frente do prédio, expondo suas vísceras de espuma.

Sorriu.

- O bom da vida é isso: as coisas só desaparecem quando morrem dentro da gente.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tema 17 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "QUANDO O PASSADO NÃO PASSA".

domingo, 8 de novembro de 2009

Tema 16 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "PATCHWORK DREAM".

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tema 14 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "BRINCADEIRA".

Tema 13 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "Meninas Chinesas".

Tema 12 - Sentidos Simultâneos

De Adriano Antunes, "EU, SÓ TEU".

Ao te ver assim
Deitada de ti e inundada de mim
Festejo um encontro de almas.

Na calma da cama em chamas,
Me amas.

E eu completo, satisfeito
Adormeço orvalhado
Para acordar sereno.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Tema 11 - Sentidos Simultâneos

De Adriano Antunes, "ESTREIA".

No meu jogo de cena
Aposto em qualquer lado
Pois nos meus dados
Todos os lados são iguais.

Encarno Macbeth por um minuto
Otelo, no outro, absoluto
Para delírio dos mortais.

Recito meias verdades
Disparates de vaidade
Sou ator sem luz, sem trilha, sem direção.

E nesse teatro vazio
De camarim sem estrela
Minha roupa de Julieta
Amarelou, rasgou, puiu.

(...)

E assim tem sido até o próximo ato

(.)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Tema 09 - Sentidos Simultâneos


De Adriano Antunes, "CAIXA PRETA".

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Desafio 13

Desafiante da Semana: Adriano Antunes
Tema: "Tijolo Quebrado"
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De Wolney Fernandes, "Fissuras Alicerçadas".

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De Adriano Antunes, "Última Martelada".

Com que direito penduras em mim a paisagem dos teus sonhos?

Por certo recordas
Teu vandalismo tosco
Suportado por amor
Aplainado pela dor.

O que mais exiges?

Quebraste o reboco
Perfuraste o tijolo
Íntimo exposto
Jazigo nu.

Hoje és...

Instável
Intruso
Insuficiente

Um prego, torto, esquecido no rodapé do quarto.
(.)

Tema 08 - Sentidos Simultâneos

De Adriano Antunes, "DESAPEGO".

Poetização da Loucura

De Adriano Antunes, "Psicose".

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Quanto ao artista, sua capacidade de mergulho no inconsciente faz com que se confunda a manifestação artística com certa dose de loucura. Loucura é um termo que adquire sentido metafórico na linguagem popular: louco é o inspirado. Logo, todo artista e todo gênio seriam loucos, pois são pessoas inspiradas.

Essa poetização da loucura não admite degradação, ignorando-a. Faz parte do imaginário popular ignorar a materialidade do artista: ele pode ser pobre e também louco, ter crises, depressões, euforias, castigar o corpo com drogas ou inanição. Sua materialidade física desaparece perto da materialidade da obra. Assim, o público mitifica o artista e o vê como um ser à parte da humanidade.

Resta a questão sobre se há, no fazer artístico ou no processo criador, algum componente que favorecia o eclodir de uma psicose. E ainda outra, correlata: se a arte, ainda que benéfica e necessária à humanidade, sacrificaria o artista, sofredor dos males, de sua missão.

Mas, habitualmente, a obra artística nos dá a oportunidade de ativar imagens de assombro e de encantamento. Talvez, sem ela, nossa espécie não sobrevivesse. Se não podemos alcançar a felicidade, tão efêmera e volátil, podemos apreciar, até nos momentos de sofrimento, algo da beleza produzida pelo ser humano a nos trazer uma brisa de alento.
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Texto: Liliana Liviano Wahba – Doutora em psicologia, professora de graduação e pós-graduação do curso de psicologia analítica da PUC-SP, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica e diretora de psicologia da Associação Ser em Cena – teatro para afásicos – publicado na revista Memória da Psicanálise 2 – Especial Mente e Cérebro.

(.)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tema 07 - Sentidos Simultâneos

De Adriano Antunes,"N.Sra dos Calafrios".


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Tema 06 - Sentidos Simultâneos

De Adriano Antunes, "Vanity Fair".

sábado, 1 de agosto de 2009

Desafio 12


Desafiante da Semana: Wolney Fernandes

Tema: "O que é escrito na lembrança vale mais do que o que ficou perdido no passado.”
(Da minissérie "Som e Fúria")

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De Wolney Fernandes, Inversões.

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De Adriano Antunes, Quimera.

aquarela (1991)

"Em linhas e cores de ingênuos 17, construí quem sou. Novas linhas, novas cores, dominam o hoje, mas no fundo, o mesmo garoto que passava os dias escrevendo e desenhando quimeras, anda de bicicleta com o vento batendo no rosto e ainda acredita em sonhos possíveis."