Parte I
Sem fazer alarde ele entrou. Escolheu a última mesa. Abriu o jornal e aguardou ser atendido com a tranquilidade de um monge em exercício de meditação. Fez seu pedido para uma impaciente moça de cabelos castanhos presos em um impecável rabo de cavalo. O ambiente era simpático apesar do pouco empenho da moça em agradar. Fotografias de vários lugares estavam fixadas em longa parede de tijolos antigos, formando uma irregular sequência de pequenos quadros. A entrada exibia algumas folhagens discretas que dividiam espaço com uma enorme prateleira de madeira envelhecida onde, à disposição dos clientes, ficavam jornais e revistas. Os aromas de café torrado e pão quente percorriam o corredor; lascivos desafiavam os gulosos narizes, ora um, ora outro. Ao longo das seis mesas enfileiradas em frente ao balcão, uma ampla vitrina permitia privilegiada visão da avenida principal. Naquela manhã, poucas pessoas transitavam pela calçada e a ausência de carros permitia ver os primeiros raios de sol refletidos nas poças de água deixadas pela rápida chuva da madrugada. Depois de tomar o café, depositou o dinheiro na mesa, e com discrição saiu. Cris acompanhou com olhos baixos o deslocar do estranho, da mesa ao fundo até a porta, perdendo-se no último vislumbre de suas costas enquanto a mesma porta incumbia-se de mostrar a distância que deveria ser respeitada entre uns e outros.
Dois meses atrás, quando ele entrou pela primeira vez na cafeteria, trouxe consigo o desconforto característico das grandes mudanças. Cris sentiu uma contração estranha no estômago, o coração acelerou e impiedosamente foi arrebatada por uma sensação angustiante que indicava a proximidade concreta do seu objeto de maior desejo e ao mesmo tempo de seu maior temor. Desde então, habituou-se a esperá-lo todos os dias no mesmo horário. E ele apresentava-se pontualmente. Escolhia a última mesa e lia seu jornal preferido acompanhado de uma xícara de café e lascas de casca de laranja com açúcar. Cris observava tudo pelo canto do olho enquanto atendia os outros clientes que aguardavam no balcão. Desejava saber quem era aquele homem, de onde vinha, para onde iria, do que gostava e se possível, se estaria disposto a depositar alguma esperança naquela vida medíocre que fora destinada ao nascer. Mas ele sempre partia apressado deixando um rastro de interrogações. Os olhos de Cris beijavam as costas do estranho ao sair enquanto ele, apressado, atravessava a avenida e sumia rapidamente em um taxi.
Certo dia, ele não apareceu. E no dia seguinte também não. Ela até tentou esticar os minutos do relógio, na esperança de um atraso, mas uma ansiedade perturbadora a fez quebrar xícaras, errar pedidos, e por vencida concluir que ele não apareceria. Teve a certeza da inutilidade de seus sonhos já que eles não conseguiam atravessar aquela idiota porta. E assim, sem verter lágrima, continuou servindo os clientes como sempre fizera e provavelmente continuaria fazendo por muito, muito tempo.
Passado alguns dias, ele voltou. Estava diferente. Cabelo cortado, camisa alinhada e um perfume discreto que antecipou sua entrada na cafeteria. Atravessou o corredor, acomodou-se no balcão, contrariando o olhar da moça do rabo de cavalo que pronta, ao fundo, o aguardava impaciente ao lado da mesa. Cris, de costas, não havia percebido que ele estava ali tão próximo, virou-se sem perceber o que acontecia. Seus olhos pararam nos lábios dele e suas mãos gelaram em contato com a xícara quente que segurava. Ele sorriu constrangido. Sentado na frente dela, depositou as mãos sobre o balcão e pediu seu café costumeiro. Não notou o jornal posto ao seu lado pela moça do rabo de cavalo que para deixar claro que o lugar dele não era ali, vestiu-se de arrogância e desdém e foi plantar-se ao lado da mesa ao fundo. Desta vez ele não estava interessado no jornal. Só tinha olhos para Cris que atrapalhada tentava esconder os nervosos dedos nas costuras do avental.
O local estava vazio, diferente dos outros dias. Ele iniciou conversa banal e em pouco tempo relatou suas aventuras pelo mundo. Ela escutou cada detalhe com total atenção. Entre uma história e outra percorreu de cima a baixo sua antiga lista de exigências esquecida em algum lugar do peito e não conseguiu reprová-lo em nenhum item importante. Observou seu sorriso acolhedor, a gentileza dos gestos, a clareza das idéias, a atenção que destinava as coisas, como descrevia cada detalhe de suas aventuras, o tom da voz e até mesmo as contradições que inexistiam nos seus relatos. Formulou hipóteses, criou situações, percorreu estranhos sentimentos até descartar completamente qualquer empecilho entre os dois.
Nos dias que seguiram... Pontualmente ele sentava em frente ao balcão e cheio de esperança, declarava sua admiração, sua vontade e sua paixão. Propunha companhia para uma vida nova, cheia de aventuras e um mundo inteiro para desvendar. Partiriam em breve e retornariam quando estivessem exaustos de percorrer tantos lugares interessantes. Aí, somente aí, pensariam em sossego. Cris suava frio. Sentia suas pernas tremer. Ele representava tudo o que desejou ter, estes anos todos, atrás daquele balcão escuro.
Acostumou-se a enxergar o mundo pelo vidro daquela vitrina. Sabia que a florista tinha um romance com o farmacêutico da esquina. Descobriu pelos olhares cúmplices, cheios de desejo, e pela suavidade dos toques distraídos e prolongados, ao pegar um remédio ou entregar uma flor. Sabia também, que o motorista do ônibus 235 sempre passava com 15 minutos de atraso, o que não era de se estranhar, pois bastava olhar como o motorista se arrastava quando entrava pela porta da cafeteria para pegar o café da manhã e maiores conclusões se faziam desnecessárias. A professora de inglês que morava no prédio em frente, passeava todas as manhãs com seu Bulldog francês, declamando para o bichinho poetas ingleses na língua de origem e deixando um rastro de cabeças viradas e bocas nervosas que a intitulavam: a louca. Havia também o guarda da relojoaria, que sentado em seu humilde trono, após o almoço, não resistia ao marasmo e pendia a cabeça para a direita em compenetrado cochilo de trinta minutos e tal fato era desconsiderado pelo casal de proprietários uma vez que não havia registro de alguma tentativa de furto desde que a loja fora inaugurada.
O seu ridículo mundo era demasiado restrito e compunha-se basicamente de um modesto apartamento quarto e sala, uma coleção de bem cuidados livros e um mísero emprego para garantir um pouco de dignidade na vida. Passava seus dias entre o seu reflexo no vidro da vitrina, muitas vezes não reconhecia aquele rosto que implorava por salvação atrás do escuro balcão, e os vultos coloridos que percorriam a avenida, mais nítidos nos dias de sol.
Ele continuou ali, olhando, hipnotizando, embriagando com doces palavras, recheadas de desejos. Ela tornou-se presa fácil, não pôde negar, a chama da mudança deu seus primeiros sinais de vida. Será que conseguiria manter-se em pé ao sair detrás daquele escuro balcão? Há muito tinha esquecido o que representava fazer escolhas. Sua vida havia se transformado em uma sucessão de fatos e não necessariamente de escolhas. Simplesmente permitiu que a vida seguisse seu curso. Era assim que se sentia segura. Mas naquele dia, um sopro de frescor levantou toda a camada de pó acumulada ao longo dos anos em sua alma. O desejo produzia eco nos recantos mais profundos do seu corpo e a lógica implorava para ser deixada em paz.
Entre um gole e outro, ele descreveu o longo período que viveu no exterior, as muitas culturas que conheceu e um apanhado de situações inusitadas que deixariam metade das pessoas daquela cidadezinha de olhos arregalados e queixos caídos. Transparecia orgulho sem ser arrogante e parecia ter total domínio sobre o próprio destino. Tão diferente dela que necessitava sempre por a casa em ordem para não esbarrar em algo perdido no caminho. Levou anos para organizar seus pensamentos. Acrescentou coisas e subtraiu outras, fez sua escala de valores. Compôs frases de efeito para todas as ocasiões que necessitassem soluções rápidas e firmes. Tinha uma enorme dificuldade de escolher entre o preto e o branco, entre a ausência e a totalidade. As nuances a interessavam e os detalhes a aprisionavam.
Ele era a areia e ela o rochedo. Como poderia seguir a areia? Teria que se fragmentar, reduzir-se a pó, fundir-se a ela até não saber o começo de um e o final do outro. De quantos rochedos aquela areia era composta, resíduos de outras paragens? Misturar-se significava perder sua unidade, se expor e isso a assustava. Como rochedo poderia enfrentar grandes ondas. Já fizera isso muitas vezes. Mas como grãos, desprotegida, sobreviveria ao mundo? Seria mais leve levada pelo mar ou arrastada pelo vento? Não mais haveria de se preocupar com as grandes ondas? O que aconteceria aos seus fragmentos no decorrer da longa viagem? E se naquele devaneio ela se perdesse? Talvez até de si mesma.
Ele permaneceu embriagado de amor. Deixou transparecer toda a admiração que sentia por ela. Seus olhos brilharam ao perceber que, aflita, lutava entre razão e emoção. E confiante esperou. Certo da vitória. Ela debatia-se entre as paredes grossas de seu coração. Portas foram abertas, algumas há muito fechadas. Retirou entulhos, arejou pequenos quartos e pôs alguns sentimentos em clausura absoluta. Descobriu-se vaidosa. Seria isso fruto dos inúmeros elogios dados pelo estranho, dos quais não se fazia merecedora? Concluiu que de qualquer forma estaria desprotegida. Se ficasse, a solidão não a deixaria esquecer a oportunidade perdida. Se fosse, estaria sem chão, a deriva.
Mas em súbito impulso, olhou para os lados, desamarrou o avental sob o olhar atento da moça do rabo de cavalo, pegou sua bolsa do cabide, levantou a passagem de madeira do balcão e aproximando-se dele, disse:
- Vamos, antes que eu me arrependa.
Ele rapidamente passou seu braço pela cintura dela e depositou um rápido beijo em seus lábios trêmulos. A moça do rabo de cavalo mal conseguia acreditar. Correu ao alcance dos dois e pela primeira vez demonstrou algum sentimento:
- Você está louca, garota? O que pensa que está fazendo? Você não sabe nada sobre esse cara. Não cometa este erro. Controle-se.
Dessa vez ela sorriu. Um sorriso nervoso. Alterado.
- Eu esperei por ele a minha vida toda e ele me encontrou, finalmente; isso me basta.
Os outros funcionários se acotovelavam no balcão, mantendo uma distância segura. A moça do rabo de cavalo tentou novamente, não conformada:
- Você vai arruinar sua vida. Escute o que estou te dizendo.
Ele assistia a tudo sem se manifestar. Seus braços a protegiam das investidas da moça do rabo de cavalo.
- Não tenho o que perder se não tenho o que levar.
A moça do rabo de cavalo fez descer suas mãos ao lado do corpo e com um suspiro profundo anunciou sua desistência. Sabia ser inútil convencê-la.
- Só te peço um pequeno favor.
- Fale.
- Prepare um expresso duplo sem açúcar; para viagem.
E o sorriso nervoso voltou à face.
- Acho que vou precisar.
Parte II
Mais uma. Apenas mais uma esquina e estaria na avenida da antiga cafeteria. Cris não conseguiu conter a emoção. Os olhos marejados queriam verificar cada detalhe, cada tijolo, cada rosto. Sentiu medo. Três anos...
Usava um vestido de estampa miúda e sandálias baixas. O cabelo, levemente ondulado, solto ao vento, crescera desde sua partida, passando um palmo do ombro. Trazia nas costas uma pequena mochila e, na alma, um caminhão de culpa.
A cidade parecia a mesma desde sua fuga. Dobrou a esquina com os olhos esticados. Baixou a cabeça, tentando arranjar forças para se aproximar. Não demorou muito para perceber o farmacêutico dentro do quiosque, atrás das flores, com a felicidade estampada no rosto, montando um pequeno arranjo. Um ligeiro sorriso pousou no canto da boca. O amor era assim, capaz de transformar qualquer coisa. Por sorte, em coisas boas, mas nem sempre, isso ela sabia bem.
Cris fixou seus olhos castanhos no antigo relógio da fachada da relojoaria quando o ônibus 235 desceu a avenida em direção à Igreja. Eram onze horas. Andou até o meio da quadra. Parou no lado oposto à cafeteria. Olhou para a porta e a respiração ficou curta e acelerada.
Longo tempo. Tanto para saber, muito para contar...
A cafeteria estava como deixou. Parecia ter saído ontem, após um dia comum de trabalho. Da posição que estava conseguiu ver sua irmã. Reconheceria aquele rabo de cavalo a quilômetros. Ela era realmente uma pessoa feliz; pensou. Sempre segura de seus atos. Sua vida era tão cuidadosamente planejada quanto cada fio de cabelo preso naquele rabo de cavalo. Contentava-se em fazer o que tinha que ser feito. Cumpria rigorosamente suas funções e vivia de forma simples. Nenhuma grande desgraça havia ocorrido em sua vida. Simplesmente vivia o que tinha no dia, sem passado, sem futuro. Nunca reclamou de insegurança ou frustração. Era a pessoa em quem todos depositavam confiança, inclusive ela, que ali estava à espera dos seus braços acolhedores.
Atravessou a avenida. Como quem se esconde, parou receosa em frente à porta. Exitou. Olhou seu reflexo no vidro e sentiu vergonha. Sabia bem o que isso significava. Precisava de um banho. Um banho que levasse todas as impurezas, todos os pensamentos ruins, todas as dolorosas lembranças, até mesmo sua vida, se tivesse coragem, ralo a baixo. O pé direito tentou timidamente avançar. As mãos procuravam abrigo. Eram assim, em estado de tensão, enfiavam-se pelas frestas.
A moça do rabo de cavalo estava servindo um cliente quando, em um movimento rápido, como se tivesse ouvido um chamado, olhou em direção à porta e percebeu sua irmã parada, com a cabeça baixa e uma vontade explícita de fuga. Largou imediatamente a xícara e em poucos segundos atravessou a porta que parecia não existir. Puxou sua irmã para si e abraçou seu corpo com força. Cris apenas chorava. Chorava o choro dos tolos, dos iludidos. A moça do rabo de cavalo não disse palavra. Ficaram assim por longo tempo.
Já dentro, refeita, Cris recebeu o abraço dos outros funcionários da cafeteria, que sob o olhar da moça do rabo de cavalo, não ousaram fazer perguntas, ficando estabelecido nas entrelinhas que ela havia retornado de uma viagem qualquer. Nada aconteceu, nada a comentar. Cris voltaria a ocupar seu costumeiro lugar atrás do balcão. O posto estrategicamente escolhido pela irmã para evitar contatos maiores com clientes salientes. A moça do rabo de cavalo preferia fazer o trabalho duro a ter que persuadir Cris a não se encantar por algum forasteiro cheio de “boas intenções”. Sim, havia falhado. Um instante de descuido e não pode evitar o pior.
Mas aos poucos, a vida voltaria ao normal. E voltou.
Então, ele entrou. Cabelo batendo no ombro. Jeans desbotado e camisa solta, branca, de algodão. Não quis mesa. Preferiu o balcão. Sentou em frente a Cris que o fitou com olhos arregalados de surpresa. As mãos voltaram a se esconder nas costuras do avental. Isso definitivamente não era bom sinal. A moça do rabo de cavalo distraidamente arrumava as toalhas das mesas ao fundo. Cris sorriu nervosa. O forasteiro, em um golpe preciso, pediu um expresso duplo sem açúcar. Ela corou. As mãos tornaram-se úmidas. Ele insistente, olho no olho, penetrou a lâmina com delicada violência. O coração de Cris voltou a sangrar. Ela era o cordeiro pronto para o sacrifico. Morreria, era sabido, sem fazer ruído.
fim