
De Adriano Antunes,
"Psicose"............................................................................................................
Quanto ao artista, sua capacidade de mergulho no inconsciente faz com que se confunda a manifestação artística com certa dose de loucura. Loucura é um termo que adquire sentido metafórico na linguagem popular: louco é o inspirado. Logo, todo artista e todo gênio seriam loucos, pois são pessoas inspiradas.
Essa poetização da loucura não admite degradação, ignorando-a. Faz parte do imaginário popular ignorar a materialidade do artista: ele pode ser pobre e também louco, ter crises, depressões, euforias, castigar o corpo com drogas ou inanição. Sua materialidade física desaparece perto da materialidade da obra. Assim, o público mitifica o artista e o vê como um ser à parte da humanidade.
Resta a questão sobre se há, no fazer artístico ou no processo criador, algum componente que favorecia o eclodir de uma psicose. E ainda outra, correlata: se a arte, ainda que benéfica e necessária à humanidade, sacrificaria o artista, sofredor dos males, de sua missão.
Mas, habitualmente, a obra artística nos dá a oportunidade de ativar imagens de assombro e de encantamento. Talvez, sem ela, nossa espécie não sobrevivesse. Se não podemos alcançar a felicidade, tão efêmera e volátil, podemos apreciar, até nos momentos de sofrimento, algo da beleza produzida pelo ser humano a nos trazer uma brisa de alento.
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Texto: Liliana Liviano Wahba – Doutora em psicologia, professora de graduação e pós-graduação do curso de psicologia analítica da PUC-SP, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica e diretora de psicologia da Associação Ser em Cena – teatro para afásicos – publicado na revista Memória da Psicanálise 2 – Especial Mente e Cérebro.
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